Todos os anos, milhões de turistas cruzam a fronteira entre Brasil e Argentina atraídos por algo que nenhuma praia ou paisagem natural explica: a vontade de viver de perto o samba ou o tango, a culinária, os museus e os festivais que tornam cada país um destino cultural por si só. Esse turismo é consequência direta de décadas de investimento, ou da falta dele, em cultura. Enquanto um país bate recordes sucessivos de captação de recursos para o setor, o outro atravessa o ajuste fiscal mais agressivo de sua história recente. O resultado revela duas filosofias de Estado completamente diferentes, e, no fim, dois jeitos distintos de manter viva a própria identidade.
Quando a cultura vira política de Estado: o caso brasileiro
O Brasil tem na Lei Rouanet (Lei nº 8.313/1991) seu principal instrumento de fomento, e os números recentes impressionam. Segundo o Ministério da Cultura, a captação via Lei Rouanet chegou a R$ 3,41 bilhões em 2025, uma expansão de 12,1% em comparação aos R$ 3,04 bilhões de 2024 e um avanço de 45,1% sobre os R$ 2,35 bilhões registrados em 2023. Atualmente, o país tem 4.866 projetos culturais em execução em todas as 27 unidades federativas, e a base de patrocinadores também cresceu: entre 2022 e 2025, o número de empresas investidoras saltou de 4.029 para 6.250, um avanço de 55,1%.
Esse fôlego não parou em 2025: só nos primeiros quatro meses de 2026, o governo já havia aprovado R$ 702 milhões em incentivos fiscais para 481 projetos culturais. Além da Rouanet, o Brasil conta com a Política Nacional Aldir Blanc, com investimento de R$ 3 bilhões anuais e projeção de R$ 15 bilhões até 2027, levando recursos a regiões historicamente menos atendidas pelo incentivo fiscal tradicional.
Há ainda um dado que dá um peso econômico concreto a tudo isso: um estudo da Fundação Getúlio Vargas, encomendado pelo próprio Ministério da Cultura, mostrou que a cada R$1 investido em projetos executados com recursos da Lei Rouanet, R$7,59 retornam à economia. Em 2024, cerca de 230 mil vagas de trabalho foram abertas com apoio do programa. Cultura, nesse modelo, não é despesa: é motor de geração de emprego e renda.
A diversidade cultural brasileira: do frevo ao funk, um país-continente
Esse volume de recursos só faz sentido porque o Brasil é, em si, um caleidoscópio cultural. Daqui saem o samba e o carnaval, patrimônios reconhecidos pela Unesco; o frevo de Pernambuco; o forró e o maracatu do Nordeste; o boi-bumbá amazônico; o tropicalismo que revolucionou a música popular nos anos 1960; e manifestações contemporâneas como o funk, hoje fenômeno de exportação cultural. A culinária, a capoeira, o artesanato indígena e afro-brasileiro e a literatura de Jorge Amado, Clarice Lispector e Machado de Assis completam um mosaico que nenhuma lei, por mais robusta que seja, conseguiria sustentar sozinha, daí a importância de um sistema de incentivo fiscal nacionalizado, capaz de alcançar do Amazonas ao Rio Grande do Sul.
Argentina: a cultura que resiste à tesoura do ajuste
Do outro lado da fronteira, o cenário é de contração. Desde que assumiu, o governo de Javier Milei colocou a “batalha cultural” no centro do discurso político, e isso se traduziu em cortes profundos. A Secretaria de Cultura nacional foi deslocada para a órbita da Presidência, e o Instituto Nacional del Teatro, um dos principais órgãos de fomento às artes cênicas do país, teve 20% de seu quadro de funcionários reduzido, com a promessa de novos cortes em gastos considerados desnecessários. O orçamento federal mais amplo segue a mesma lógica: a função “Educação e Cultura” no Orçamento 2026 cai 1% em termos reais em relação a 2025 e 47,7% se comparado a 2023, segundo análise da Chequeado sobre a lei orçamentária aprovada pelo Senado argentino.
Diante do recuo do fomento federal, é o nível local que sustenta boa parte da produção cultural argentina, sobretudo em Buenos Aires. A Lei de Mecenazgo Cultural da capital permite que empresas destinem parte do Imposto sobre os Ingresos Brutos a projetos artísticos, e o programa segue mostrando força: a edição 2025 aprovou 754 projetos, superando a edição anterior, com 87% dos projetos aprovados em 2024 já tendo arrecadado seus fundos em nove meses. Recentemente, a própria lei foi modernizada para ampliar os benefícios fiscais às empresas patrocinadoras, elevando a dedução mínima possível e facilitando a apresentação de projetos.
Tango, fileiras e Mercado: a alma cultural argentina em busca de fôlego
Mesmo sob pressão orçamentária, a identidade cultural argentina continua pulsando. O tango, nascido nos bairros portuários de Buenos Aires e também reconhecido pela Unesco, é talvez o símbolo mais universal do país. A literatura de Borges e Cortázar, o cinema argentino (premiado internacionalmente com filmes como “O Segredo dos Seus Olhos” e “Argentina, 1985”), o folclore das províncias do interior, o futebol como religião popular e a tradicional Feira do Livro de Buenos Aires, uma das maiores da América Latina, mostram um país que, mesmo com menos recursos públicos, mantém viva uma das cenas culturais mais respeitadas da região, hoje sustentada cada vez mais pelo mecenato privado do que pelo Estado.
O que esse contraste revela sobre os dois países
Brasil e Argentina chegam a 2026 em direções opostas no financiamento da cultura. O modelo brasileiro aposta na nacionalização do incentivo fiscal como política de Estado, tratando a cultura como vetor de desenvolvimento econômico, turismo e inclusão regional. Já a Argentina vive um momento de redefinição: o Estado recua, mas o mecenato privado, sobretudo em nível municipal e provincial, tenta preencher o vazio. Em ambos os casos, o que está em jogo não é apenas dinheiro: é a forma como cada nação escolhe contar a própria história ao mundo. E, nesse aspecto, tanto o samba quanto o tango parecem decididos a continuar tocando, dane-se o orçamento.
A Krie+ entende de projetos incentivados, e pode ajudar o seu projeto a sair do plano das ideias.
Acompanhar de perto as movimentações da Lei Rouanet e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) é parte do nosso trabalho diário na krie+. Sabemos que, por trás de cada captação, existe um produtor cultural que precisa transformar uma boa ideia em um projeto aprovado, com planejamento, prestação de contas e captação de patrocínio bem estruturados. Se você tem um projeto cultural e quer aproveitar esse momento histórico de fortalecimento do incentivo fiscal no Brasil, a Krie+ está disponível para te ajudar a elaborar, captar, executar e prestar contas de iniciativas via Lei Rouanet, PNAB ou outras leis de incentivo à cultura. Fale com a nossa equipe e vamos juntos colocar sua ideia em cena.
![]()


