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Depois de olhar para fora, o que falta para o Brasil transformar cultura e esporte em estratégia de desenvolvimento

Ao longo dos últimos artigos, percorremos diferentes países para compreender como governos, empresas e sociedade civil financiam a cultura e o esporte. Encontramos modelos variados, baseados em investimento público direto, fundos nacionais, incentivos tributários, recursos de loterias, patrocínios, parcerias público-privadas e políticas voltadas à formação de público.

Essa jornada mostrou que não existe uma fórmula única. Cada país estruturou seu sistema de acordo com sua história, sua economia e, principalmente, com a maneira como compreende o papel da cultura e do esporte na sociedade.

Depois de olhar para fora, é hora de voltar os olhos para o Brasil. O que podemos aprender com essas experiências? E, sobretudo, o que o Brasil também tem a ensinar?

O Brasil possui um dos sistemas mais diversos de financiamento?

Apesar das críticas frequentes, o Brasil desenvolveu uma estrutura ampla e diversificada de incentivo à cultura e ao esporte. O país conta com mecanismos federais, estaduais e municipais, fundos públicos, editais, emendas parlamentares, patrocínios de empresas públicas e privadas e programas de financiamento direto.

A Lei Rouanet, a Lei Federal de Incentivo ao Esporte, editais,  as legislações estaduais vinculadas ao ICMS e os mecanismos municipais relacionados ao ISS e ao IPTU possibilitam que projetos sejam realizados em diferentes territórios, linguagens e segmentos.

O principal desafio, portanto, não está apenas na quantidade de instrumentos disponíveis, mas na forma como os recursos são distribuídos, na continuidade das políticas públicas, na capacitação dos proponentes e na aproximação entre projetos e empresas patrocinadoras.

Temos mecanismos. O que ainda precisamos fortalecer é a capacidade de fazer com que eles alcancem mais pessoas, regiões e iniciativas.

Por que aprovar um projeto é apenas o começo?

Durante muito tempo, consolidou-se a impressão de que a aprovação em uma lei de incentivo significava a conquista automática dos recursos. Quem atua no setor, no entanto, sabe que o processo funciona de outra forma.

A aprovação autoriza o projeto a buscar patrocínio, mas não significa que o dinheiro já esteja disponível.

Entre a autorização para captar e a realização da proposta existe um caminho complexo. É necessário desenvolver uma apresentação comercial consistente, identificar empresas alinhadas ao propósito do projeto, construir contrapartidas relevantes, estabelecer relacionamentos institucionais, participar de reuniões, responder a exigências e manter uma rotina contínua de prospecção.

Por isso, precisamos falar menos sobre projetos aprovados como se fossem resultados finais e mais sobre a construção de um verdadeiro ecossistema de captação.

Sem empresas conscientes de seu papel no desenvolvimento dos territórios e sem profissionais preparados para construir essa ponte, milhares de boas propostas continuam sem sair do campo da intenção.

Por que cultura e esporte não podem ser vistos apenas como contrapartidas sociais?

Um dos principais aprendizados das experiências internacionais é que cultura e esporte são tratados como setores estratégicos. Eles movimentam cadeias econômicas, geram empregos, atraem turistas, ocupam espaços públicos, fortalecem identidades, estimulam a educação, promovem saúde e ampliam o sentimento de pertencimento.

Um festival cultural não mobiliza apenas artistas. Ele envolve produtores, técnicos, montadores, profissionais de comunicação, hotéis, restaurantes, empresas de transporte, equipes de segurança, comerciantes e uma extensa rede de fornecedores.

Da mesma forma, um projeto esportivo não beneficia apenas atletas. Ele pode contribuir para a saúde, a disciplina, a convivência comunitária, o desempenho escolar, a permanência de crianças e adolescentes na escola e a construção de novas perspectivas profissionais.

Quando cultura e esporte são apresentados somente como ações sociais, grande parte de seu impacto econômico, territorial e estratégico se torna invisível.

Reconhecer sua dimensão social é fundamental. Mas enxergar apenas essa dimensão é limitar seu verdadeiro potencial.

Os números ajudam a dimensionar essa importância. Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, elaborado pela Firjan com dados de 2023, a indústria criativa brasileira gerou aproximadamente R$ 393,3 bilhões, o equivalente a 3,59% do Produto Interno Bruto nacional. Em 2004, essa participação era de 2,09%, o que demonstra uma trajetória consistente de crescimento. O setor também reunia cerca de 1,26 milhão de profissionais formalmente empregados, abrangendo áreas como cultura, audiovisual, música, publicidade, design, arquitetura, moda, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento. Esses dados mostram que a criatividade não ocupa uma posição periférica na economia: ela já constitui uma atividade produtiva relevante, capaz de gerar riqueza, empregos, inovação e competitividade para o país. 

Como descentralizar as oportunidades?

O Brasil possui dimensões continentais e uma diversidade cultural difícil de encontrar em qualquer outro lugar do mundo. Ainda assim, a distribuição dos recursos permanece marcada por profundas desigualdades territoriais.

Projetos realizados em grandes centros econômicos costumam encontrar maior concentração de empresas patrocinadoras, equipes especializadas e estruturas profissionais de captação. Enquanto isso, iniciativas relevantes localizadas no interior ou em regiões com menor presença empresarial enfrentam obstáculos para acessar os mesmos mecanismos.

Descentralizar não significa retirar recursos de quem já desenvolve bons projetos. Significa ampliar as portas de entrada para que mais territórios possam participar.

Esse movimento exige capacitação, editais regionalizados, fortalecimento dos fundos públicos, incentivos adicionais para empresas que patrocinam projetos fora dos grandes centros e políticas que aproximem iniciativas locais de potenciais investidores.

Também exige reconhecer que o impacto de um projeto não deve ser medido apenas pelo tamanho de seu público, mas pela transformação que ele produz no território onde acontece.

O que o Brasil também pode ensinar ao mundo?

Precisamos abandonar a ideia de que apenas outros países possuem experiências bem-sucedidas.

O Brasil desenvolveu conhecimento técnico, criatividade e capacidade de execução em condições muitas vezes adversas. Temos profissionais que aprenderam a elaborar, captar, executar e prestar contas de projetos dentro de sistemas complexos e altamente regulados.

Temos iniciativas que transformam praças, escolas, comunidades e cidades inteiras. Projetos culturais e esportivos que permanecem ativos por anos, formam profissionais, criam redes, preservam memórias e alcançam públicos que dificilmente seriam atendidos pelo mercado tradicional.

Nossa diversidade, nossa capacidade de adaptação e a existência de mecanismos que permitem a participação direta das empresas no financiamento de projetos também constituem referências importantes.

O Brasil não precisa apenas importar modelos. Precisa reconhecer, aperfeiçoar e compartilhar as soluções que já desenvolveu.

Qual deve ser o próximo passo?

Talvez o próximo avanço não dependa da criação de mais uma lei, mas da integração e do aperfeiçoamento das ferramentas que já existem.

Precisamos de regras mais claras, plataformas mais acessíveis, fiscalização eficiente, segurança jurídica, formação continuada e maior compromisso das empresas com os territórios onde atuam.

Também precisamos compreender que cultura e esporte não podem aparecer no planejamento público ou empresarial apenas quando sobra orçamento. Eles devem ocupar um lugar permanente nas estratégias de desenvolvimento econômico, social e humano.

Depois de observar tantos modelos internacionais, uma conclusão se torna evidente: países que tratam cultura e esporte como investimento constroem sociedades mais criativas, saudáveis, conectadas e preparadas para o futuro.

O Brasil já possui instrumentos, profissionais, diversidade e projetos capazes de impulsionar essa transformação. O que ainda falta é articular essas forças, garantir continuidade às políticas e transformar iniciativas isoladas em uma estratégia permanente de desenvolvimento.

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Conectamos ideias, territórios e empresas para desenvolver projetos estruturados, estratégicos e preparados para acessar leis de incentivo, editais e outras oportunidades de financiamento.

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