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Quem financia a cultura? Brasil e Europa em comparação

EUROPA X BRASIL

por Manu Guimarães

O debate sobre o financiamento da cultura no Brasil

Sempre que o tema das leis de incentivo à cultura aparece no debate público brasileiro, uma pergunta surge quase automaticamente: afinal, o modelo brasileiro funciona?

A resposta, como quase tudo no campo das políticas culturais, não é simples. O Brasil construiu ao longo das últimas décadas um dos sistemas de financiamento cultural mais conhecidos do mundo, baseado principalmente em incentivos fiscais, como a Lei Rouanet, criada em 1991. Ao mesmo tempo, quando observamos como a cultura é financiada em muitos países europeus, percebemos que a lógica costuma ser diferente. Lá, o investimento público direto costuma ocupar um papel mais central com maior investimento direto do Governo e União Européia.

Comparar esses modelos é uma tentativa de entender como diferentes sociedades organizam o financiamento da cultura e que papel atribuem ao Estado, ao mercado e à sociedade nesse processo.

Como funciona o modelo brasileiro de incentivo cultural

No Brasil, o principal mecanismo de incentivo cultural funciona por meio da renúncia fiscal. Projetos culturais passam por análise técnica do governo e, uma vez aprovados, podem captar recursos junto a empresas ou pessoas físicas que destinem parte do imposto devido para financiá-los.

Esse modelo tem méritos importantes. Desde sua criação, a Lei Federal de Incentivo à Cultura (Rouanet) ajudou a viabilizar milhares de projetos culturais em áreas como teatro, música, artes visuais, patrimônio, literatura e audiovisual. Ela também contribuiu para estruturar um ecossistema profissional no setor cultural, impulsionando produtoras culturais, festivais, instituições e organizações da sociedade civil voltadas à cultura.

Na prática, o Estado autoriza o mecanismo, mas quem decide quais projetos receberão recursos ou serão patrocinados é o setor privado.

O peso da economia criativa no Brasil

A chamada economia criativa tem um peso significativo no Brasil. Estimativas apontam que as indústrias culturais e criativas representam cerca de 3% do Produto Interno Bruto do país, movimentando mais de R$ 230 bilhões por ano. O setor reúne milhões de trabalhadores e centenas de milhares de empresas, abrangendo diversas áreas como circo, design, publicidade, moda, música, games, patrimônio cultural e produção artística.

Em alguns anos, inclusive, o PIB da economia criativa chegou a superar setores tradicionais da indústria brasileira, como o automotivo e farmacêutico, o que ajuda a dimensionar o potencial estratégico desse campo para o desenvolvimento econômico.

 

Herança” é um espetáculo cênico-musical (Pablo Bernardo/Divulgação)

Herança” é um espetáculo cênico-musical brasileiro.  Em cena, três multiartistas — Júlia Tizumba, Sérgio Pererê e  Maurício Tizumba — dirigidos por Grace Passô (Pablo Bernardo/Divulgação)


Desafios do modelo brasileiro: acesso ao financiamento

O modelo brasileiro não está livre de desafios. A concentração de recursos em grandes centros urbanos, especialmente no eixo Rio-São Paulo, é uma crítica recorrente da sociedade. Para corrigir essa questão, o Governo Federal trabalha em democratização de acesso das verbas públicas lançando editais de verba direta como a PNAB, por exemplo. 

Outro ponto frequentemente levantado é a dificuldade de acesso para iniciativas culturais menores ou de regiões com menor presença de grandes empresas que conseguem aportar verba substancial em projetos.

Uma crítica pessoal que faço às leis de incentivo à cultura diz respeito à possibilidade de artistas e eventos já consolidados, ou seja, financeiramente sustentáveis, continuarem pleiteando recursos públicos. Na minha avaliação, artistas renomados e eventos altamente rentáveis não deveriam recorrer a mecanismos públicos para financiar ou sustentar suas carreiras ou modelos de negócio. A lógica das políticas de incentivo cultural deveria priorizar iniciativas que realmente necessitam de apoio para existir, seja pela relevância cultural, pelo impacto social ou pela dificuldade de acesso a financiamento privado.

Nos últimos anos, o Ministério da Cultura e algumas Secretarias Estaduais têm afirmado que esse cenário tende a mudar, argumentando que se trata de uma questão estrutural da própria legislação, cuja alteração depende de mudanças aprovadas pelo Congresso Nacional. Considerando o funcionamento do processo legislativo brasileiro — e especialmente o contexto político recente — essa justificativa acaba sendo plausível. Ainda assim, o debate permanece importante, pois discutir quem deve acessar os mecanismos de incentivo e quais critérios devem orientar essa distribuição é parte fundamental do aprimoramento das políticas culturais no país.

Essas questões fazem parte do debate permanente sobre o aprimoramento das políticas culturais brasileiras.

O financiamento cultural na Europa

Quando voltamos o olhar para a Europa, encontramos uma abordagem um pouco diferente.

Em países como França, Alemanha ou Reino Unido, o financiamento cultural costuma combinar uma pequena parte de mecanismos de incentivo privado com um volume significativo de investimento público direto. Ministérios da Cultura, conselhos de artes, fundos nacionais e programas de financiamento assumem papel ativo na sustentação de instituições culturais.

Isso significa que muitos teatros nacionais, companhias de dança, museus ou orquestras recebem financiamento público contínuo, permitindo planejamento de longo prazo e maior estabilidade institucional.

A França é frequentemente citada como um exemplo desse modelo. Desde a criação de seu Ministério da Cultura, em 1959, o país consolidou uma política cultural baseada no princípio de que o acesso à cultura é um direito público, algo que deveria ser percebido por governantes de todo mundo, na minha opinião. O Estado investe diretamente na preservação do patrimônio, na manutenção de instituições culturais e no financiamento da produção artística.

Outro exemplo relevante é o programa Creative Europe, da União Europeia, que financia projetos de cooperação cultural entre diferentes países. O programa incentiva parcerias internacionais, mobilidade de artistas, circulação de obras e inovação no setor cultural.

Esses mecanismos demonstram que, em grande parte da Europa, a cultura é tratada como um investimento público estruturante, comparável a áreas como educação, ciência ou preservação histórica.

Diferentes visões sobre o papel da cultura

Isso não significa que o investimento privado seja irrelevante. O mecenato e os incentivos fiscais também existem em diversos países europeus. A diferença está no equilíbrio entre os mecanismos e, principalmente, na forma como a cultura é percebida para evolução de um povo.

No Brasil, a política cultural foi construída em grande medida a partir da mobilização do investimento privado por meio de incentivos fiscais. Em muitos países europeus, o investimento público direto ocupa uma parcela maior do financiamento cultural.

Essa diferença revela visões distintas sobre o papel da cultura na sociedade.

E talvez essa seja a reflexão mais importante para o Brasil neste momento.

O futuro do financiamento cultural no Brasil

A economia criativa cresce, gera empregos, movimenta bilhões e tem potencial de se tornar um vetor estratégico de desenvolvimento. Estudos recentes indicam que o setor pode gerar mais de um milhão de novos empregos no país até o final da década além de fluxo enorme de verba para os cofres públicos.

Se esse potencial for levado a sério, a discussão sobre financiamento cultural precisa evoluir. Não se trata apenas de defender ou criticar leis de incentivo. Trata-se de pensar em como construir um sistema mais equilibrado entre investimento público, participação privada e acesso democrático aos recursos.

Cultura como visão de futuro

Depois de muitos anos trabalhando com projetos culturais, uma coisa fica evidente para quem vive esse campo de perto: política cultural não é apenas sobre financiamento.

É sobre visão de país.

O modo como uma sociedade decide investir em cultura revela como ela entende sua própria identidade, sua memória e sua capacidade de imaginar o futuro.

No fim das contas, apoiar a cultura não significa apenas viabilizar espetáculos ou exposições. Significa investir em criatividade, inovação e naquilo que sustenta o tecido simbólico de uma nação.

E talvez seja justamente essa dimensão que precisa ocupar mais espaço no debate público brasileiro.

 

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